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Trabalhar, con-viver

É muito comum ouvir dos amigos as dificuldades que têm em trabalhar com pessoas.
Seja uma relação de equipe, patrão/empregado, representante; todos já ouvimos um milhão de queixas e dificuldades.

Ninguém assume suas falhas, é claro. Para o representante o dono da empresa está sempre querendo estragar a venda; para o dono, vendedor só quer vender, não pensa em qualidade, prazo de entrega, preço justo, lucros; para o patrão, todo empregado é folgado, para o empregado todo patrão é feitor de escravos.
Patrão não consegue delegar responsabilidades, quando muito consegue empurrar tarefas; alguns empregados sempre querem fazer o "menas" possível.
"Não sei se eu exijo demais ou se todo mundo é incompetente" dizia outro dia um amigo empresário.
Dentro de equipes de trabalho é a mesma coisa: diferenças sempre exaltadas, mágoas e ressentimentos, as qualidades e sucessos sempre em segundo plano. Passei por cada uma dessas (in)experiências com diversas pessoas com quem convivi e convivo em minha vida profissional.

Por isso me lembrei de minha relação patrão/empregado com um rapaz que chegou na empresa para trabalhar como office-boy, o que aliás aprendeu a fazer muito bem. Dominou todos os processos, filas necessárias, contatos estratégicos para diminuí-las, datas de pagamentos, esquemas de entrega de serviços, endereço dos melhores cachorros quentes... até aprendeu a suprema arte dos boys: a de andar, ouvir walkman, assobiar e girar a pasta no dedo, tudo ao mesmo tempo.

Um belo dia pego o rapaz batendo timidamente nas teclas do nosso precioso computador, o primeiro, um 286 com monitor de fósforo verde, um luxo. O cara se assustou, desconversou, mas como não dei bronca, ficou por isso mesmo.
Com o tempo ele foi se chegando e criando um caso com a máquina, que respondia ao seu interesse com muito mais carinho do que à moça que trabalhava com ela, que aliás não tinha lá grande habilidade nem paciência com nosso potente processador. Daí a colocar o rapaz na frente do computador foi um pulo. Pra encurtar a história, meses depois o cara dominava a máquina totalmente, fazia coisas que até hoje eu não saberia fazer, digitava, fazia backups, contornava os "paus" que a máquina dava, abria, passava uma borracha nos contatos (!), limpava... passou a digitar todo nosso material, que era sigiloso e não admitia erros, organizou arquivos, me ajudou a montar novas máquinas, agora servidores de última geração, passou ao teleatendimento e dava conta das duas, três, até quatro funções sem reclamar.

Fosse isso tava bom, né? Mas não era. O mais interessante é que aos poucos estabelecemos uma amizade. Devagarinho fomos ficando companheiros, ele ia à minha casa, eu ia à casa dele, trocávamos livros, ele com uma baita fome de leitura devorava tudo, trocávamos cds, e sobretudo conversávamos muito. Foi pra mim uma época dura de enfrentamento e conflitos pessoais na empresa e o rapaz às vezes era o único motivo saudável para ir até o trabalho. Acho que nem ele sabe disso.

Acompanhei seu namoro, seu casamento, a morte do seu pai, conheci irmãos e irmãs. Aprendi com ele muito sobre dedicação, fidelidade, confiança e sobretudo sobre uma postura particular dele: a de patrão em qualquer função a que se dedicasse. Ele nunca foi empregado coisa nenhuma. Até constrangia dar a ele o envelope com o pagamento.
Ele era um companheiro de trabalho e me isentava do papel chato de patrão. Assim ficamos amigos, daquele tipo de amizade confortável, com espaço largo e amplos caminhos. Foi ele que me ensinou que há um caminho do meio, que a relação com um contratado não tem que ser dura, que a amizade não "estraga" essa relação.
Não trabalhamos mais juntos mas somos amigos até hoje, e embora não nos encontremos tanto sempre conversamos pelo msn, celular, etc.

Imaginem um classificado assim: "Procura-se pessoa para trabalho em empresa. Necessária experiência em convívio, qualquer aparência, mas com transparência nas relações, com prática em falar de si, mas sobretudo ouvir. Salário incompatível com as diversas funções que irá desempenhar, nenhum prêmio incluído a não ser dar ao patrão a satisfação de sair com ele numa sexta à tarde para um chopp e para conversar sobre música, literatura e sobre a vida. Oferecem-se abraços de despedida, almoços familiares. Possibilidades de crescimento mútuo, criação de vínculos profundos de amizade e aprendizado contínuo. Currículos são desnecessários."

Acho que não haveria resposta. Ninguém responderia.

Pois é caro amigo Rogério. Esse texto é pra agradecer a você por aquele tempo que caminhamos juntos. Obrigado chefe.



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