Início > Roberto Ambrosio






Sou neto de imigrantes italianos. Nasci e cresci dentro de um galpão onde pessoas produziam malhas.

O barulho ritmado das máquinas era canção de ninar, o colo das pessoas que trabalhavam eram numerosos berços. Entendi desde cedo o esforço e o valor do trabalho dessa forma, sem que ninguém me falasse sobre isso, apenas pelo exemplo. Cresci também com a idéia de que trabalhar era necessário, mas não era sofrimento. Aprendi as quatro operações com a Eunice, balconista da loja. Aprendi histórias de terror com a Dona Santa, uma mineira que gostava de trabalhar tendo minha companhia. Aprendi muitas coisas, mas minha infância me ensinou realmente que conviver era uma coisa muito boa e que as pessoas, embora de sexo, tamanho, raças e cores diferentes eram todas iguais quando o negócio era trabalhar e conviver. Talvez tenha crescido otimista, não sei, mas este sentimento me acompanha ainda hoje.
Estudei nas escolas do bairro do Brás, fui bom aluno, mau aluno, repeti anos e ganhei medalhas. Estudei também no Colégio Nossa Senhora do Carmo, de irmãos Maristas pacientes e que me ensinaram muito, dentro e fora dos livros. Devo muito a eles. Talvez tenham sido as primeiras pessoas fora da família, principalmente o Irmão Martinez, a me reconhecerem como alguém capaz. Capaz de estudar, de saber, de sentir e discutir, capaz de ser gente.

Cresci, me apaixonei, casei e tive filhos. A Maria José, o Bruno e o Mário (que se foi muito cedo) são uma parte de mim que andam por aí desprendidas e que me enchem de orgulho.

Estudei biologia e trabalhei em muitos hospitais. Vi muitas pessoas morrerem e acho que nunca me recuperarei disto. É o pior jeito de se aprender que a vida é um bem de valor incalculável.

Abri e desenvolvi um laboratório de análises. Trabalhei nele por vinte e três anos.

Depois de sair da área da saúde em 1998 e começar a trabalhar com grupos em treinamentos me dei conta de que tinha uma missão além da minha compreensão. Ao reconhecê-la imediatamente me apaixonei por ela. Percebi que era preciso estudar e assim fiz uma formação na Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos, onde os mestres Mauro Nogueira e Marcel Paranhos me fizeram sentir que ser parte de um grupo é um grande prazer, uma fonte de aprendizado, e que coordenar grupos é tão delicado como uma microcirurgia.
Agradeço a eles por este sentimento e esta advertência e, desde já, quero que saibam que continuo estudando sempre. Ainda continuo no galpão onde se produzem malhas. Convivo diariamente com estas pessoas, algumas das quais me viram pequeno.

O prazer continua o mesmo. Acho que não há nada melhor que uma boa conversa.